quarta-feira, 5 de outubro de 2011

a menina do colar azul

Era uma vez uma menina com um colar azul.
E todos os meninos à sua volta olhavam de lado querendo saber que colar era aquele, de que era feito, se era mole, se era duro, se fazia cócegas, se curava ou simplesmente fazia sofrer.
Uns queriam tocar, outros olhavam de lado com receio do que aquilo significasse, outros ainda sorriam, divertidos, pois a cara da menina do colar azul ficava sem dúvida muito mais engraçada com o dito colar azul.
Mas no final das contas, todos queriam era saber o que realmente aquele colar azul queria dizer.
E isso, a menina do colar azul também queria saber…
Todos os dias, algures de parte incerta, uma pista surgia para tentar compreender, mas o desfecho deste enigma estava longe de se resolver.
Um dia, uma menina que não tinha um colar azul, fez-lhe algumas perguntas importantes e as duas, juntas, chegaram a uma conclusão que mudou as suas vidas: que às vezes, por razões desconhecidas, plantamos maçãs, mas recebemos laranjas.
A menina do colar azul pensou, pensou, pensou… e pensou mais um pouco, tentando perceber se isso era uma coisa boa ou uma coisa má. E chegou à conclusão que, mesmo se algumas laranjas forem ácidas, outras serão bem doces e sumarentas. E se ainda assim quisermos as maçãs… podemos sempre ir comprá-las à mercearia!

Esta história é mais longa, com mais voltas, reviravoltas e cartilagem de tubarão (obrigada Guigui!). E será uma história que contarei do início ao fim aos meninos que queriam saber da menina do colar azul.
Mas condensei-a em algumas linhas para a transformar num desabafo e num agradecimento para com todos aqueles que me têm acompanhado nesta história e merecem uma palavra (ou mais, já me conhecem), que até agora não me foi possível dar.

Desabafo, porque não tem sido fácil perceber se este colar azul me prende, me alivia, me ensina, me pára, me impulsiona,…

Ontem o médico perguntou-me se pratico desportos radicais para ter a coluna neste estado. Não lhe respondi, mas pensei “Sim, há três anos que pratico Pensarilhos” :D Este é o meu desporto radical porque tem sido à custa de muito esforço que este projecto de vida tem vindo a crescer e a ganhar forma.
E , permitam-me, às vezes pergunto-me se valerá a pena. Porque num momento como este, e apesar de trabalhar muito, vi muitas portas fecharem-se: médicos que não me passam exames aos quais tenho direito, consultas pagas a peso de ouro que não esclarecem, mas causam ruído, a sombra de uma operação que não pode ser feita em qualquer sítio e por qualquer pessoa e farmácias que se recusam a vender-me um medicamento imprescindível com receita médica simplesmente porque o médico calcou demasiado o 4 correspondente ao dia de ontem e isso poderia significar uma receita forjada (o que não faz algum sentido porque o mês e o ano estavam correctos e, se estamos a dia 4, a validade da receita, que é de trinta dias, nunca poderia estar em causa…). Foi a gota de água e, apesar de a diferença de dinheiro ser ridícula, recusei-me a perder mais um direito e trouxe o remédio com o desconto que a receita me afiançava. Por outro lado, fecharam-se portas quando ouvi o ruído de quem não foi solidário, generoso, compreensivo, pensarilho…
E como a dor, a incerteza, a impotência e o facto de não poder praticar o meu desporto radical de eleição, os Pensarilhos, me atormentavam tanto, por momentos esmorecia. Achava injusto, ter plantado com tanto carinho, esforço e dedicação maçãs e receber laranjas, algumas bem ácidas.
Mas a Maria, a minha fada-bruxa de chocolate que geralmente vive na lua, desceu à terra, e fez-me ver que no cesto, não estavam de facto maçãs, mas estavam muitas laranjas com um aspecto irresistível. E isso traz-me ao segundo ponto: agradecimento.
Agradecimento porque uma das coisas boas de ter um colar azul (para além de ser giríssimo…) é ter oportunidade de receber carinho, de rever crenças, confirmar algumas e aproveitar a alavanca para ser MAIOR.

E por isso agradeço ter pessoas tão maravilhosas, especiais, pensarilhas, únicas na minha vida que preencheram o vazio com gestos, silêncios, carinhos simples e esforços extra com cheirinho a laranja e que fizeram toda a diferença.
Não consigo dizer o nome de todas, porque felizmente foram tantas e algumas inesperadamente, que não caberiam aqui, mas ajudaram-me, mais do que a sobreviver e a ir ultrapassando este momento, a perceber coisas muito importantes e agora começo a estar pronta para redirecionar o meu caminho.
A menina do colar azul ainda não sabe qual vai ser o desfecho desta história, mas sabe que vai correr tudo bem e que, sim, vale a pena o esforço, porque afinal de contas… sempre gostou bem mais de laranjas :D
Obrigada.

2 comentários:

  1. Muitos homens pescam durante toda a vida, sem perceberem que não é peixe que procuram.

    A vida tem um propósito de cor “azul”, sem o propósito a nossa vida não tem destino e sem destino qualquer caminho serve.

    Como se faz o “azul”?
    Imagine que as nossas crianças aprendem que quando fazem o que as faz feliz estão a viver o seu propósito, imagine ainda que quando adultas vivem com um sorriso os desafios, aprendem a viver a cada momento, completamente realizadas, que o que fazem responde a um propósito e tem um significado que ultrapassa a própria pessoa.
    O “azul” aparece naturalmente quando se mistura o que nos dá prazer a fazer, o que nos desafia a cada momento e ainda, o que tem maior significado para nós.
    Quando o “azul” aparece não há dor, médico, farmacêutico, regra ou barreira que nos pare, pois conhecemos o nosso caminho que marca o destino.
    A paleta de cores vai aparecendo quando, sabendo o sentido que as coisas fazem e as intenções definidas, fazemos acontecer, estamos focados nas soluções e não nos problemas, esquecemos o “porquê isto me aconteceu” e verbalizamos o “como posso escolher o caminho que melhor me serve agora”...

    Parabéns por estar focada no COMO e não no PORQUÊ.

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  2. Obrigada pelo seu comentário, Paulo. Pensei muito se haveria de pôr cá para fora o que estava a sentir, por vários motivos... Isto é uma coisa de nada, uma gota num oceano, mas que me fez parar e reflectir. Por isso achei que podia partilhar.

    Cada vez mais azul,

    Joana ;D

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